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Década jogada no lixo: promessa eram cursos de capacitação, mas, 10 anos depois, muitos ex-catadores mal sabem ler | Rio de Janeiro

 Década jogada no lixo: promessa eram cursos de capacitação, mas, 10 anos depois, muitos ex-catadores mal sabem ler | Rio de Janeiro


Quando o Aterro Sanitário de Gramacho fechou as portas em junho de 2012, deixando 1.707 catadores sem condições de garantir o próprio sustento, o governo prometeu cursos de capacitação profissional para todos. Mas hoje, 10 anos depois, muitos deles nem sequer sabem ler e escrever.

A luz no fim do túnel veio de dentro da comunidade. Turmas de alfabetização criadas pelo projeto social IDE têm ajudado a dar os primeiros passos no processo de alfabetização.

Esta é a quarta reportagem da série ‘Década jogada no lixo’, na qual o g1 conta como está Jardim Gramacho depois que as montanhas de lixo desapareceram.

“Eu li sozinha uma carta que minha mãe mandou do Norte pra mim. Uma vez chegou uma e eu não li, quem leu foi meu filho. Mas eu queria ler para ver as letras da minha mãe. Parecia que minha mãe tava falando comigo através da carta, na minha mente”, comemora Luiza José dos Santos Drumond, 66 anos, ex-catadora do Aterro Sanitário de Jardim Gramacho.

FOTOS: https://admin.backstage.globoi.com/apps/multi-content/g1/multi-content/edit/8476a2a2-3034-4477-ab7c-f6335180e4f0/

A professora Vanessa Vecchi e seus alunos, moradores do Jardim Gramacho — Foto: Marcos Serra Lima/g1

O IDE foi criado em 2009 com a intenção de levar o esporte para as crianças de uma comunidade extremamente carente. Foi na época do encerramento das atividades do lixão que os fundadores perceberam, porém, que as necessidades da população do Jardim Gramacho eram ainda maiores.

“Começamos a olhar para esse desespero dos pais e procurarmos a profissionalização dos mesmos. A gente montou o curso de salão de beleza, porque era uma coisa que você pode ir de casa em casa, você pode atender sem o aparato de uma loja, sem o aparato de uma empresa. Então, montamos cursos profissionalizantes, corte, costura, curso industrial, montamos o salão de beleza, artesanato profissionalizante”, diz o idealizador do projeto, pastor Anderson Leite, 48 anos.

O pastor Anderson Leite no tatame em Jardim Gramacho onde já formou até campeões mundiais — Foto: Marcos Serra Lima/g1

Hoje com 78 anos, a ex-catadora Adenair do Nascimento Santiago lembra os dias difíceis de trabalho e das dores que sente até hoje. Ela não conseguia comer dentro do aterro sanitário e acabava ficando muitas horas com o estômago vazio.

“A doutora passou remédio pra mim e tomar bastante leite, mas, mesmo assim, tem dia que estou com aquele problemazinho no estômago”, conta a ex-catadora, que hoje está em processo de alfabetização, mas já comemora a evolução no aprendizado.

“Vim pra aqui sem saber ler, nem saber escrever, e não sabia nem me comportar no meio do pessoal. Hoje eu tô me sentindo outra pessoa. Sei já um pouquinho, não sei muito, mas já sei escrever, sei pegar na caneta”, diz Adenair.

Quando o aterro fechou, diversas promessas foram feitas para a população local, formada em grande parte por ex-catadores: indenização, cursos de capacitação, criação de polo de reciclagem, saneamento básico. Mas a realidade dessa população é ainda pior, pois poucos conseguiram uma profissão na qual pudessem garantir o sustento da família.

“No espaço onde nós estamos um dia funcionou aqui um curso de pedreiro da Faetec. Se nós procurarmos hoje um pedreiro formado nesse espaço aqui, eu acho que vai ser como procurar uma agulha no palheiro. Então, houve muito alguma badalação pós-fechamento, muitas pessoas ligadas a governos municipal, estadual e federal arrecadaram em nome disso. Porém, capacitar, que era o que deveriam fazer, isso pouco aconteceu”, afirma Anderson.

Em nota, a Faetec alegou que no seu processo não é necessário indicar ocupação profissional. Sendo assim, não é possível informar quantos dos alunos formados eram catadores.

A fundação também informou que o Canteiro Escola, inaugurado em 2012 com o objetivo de capacitar os ex-catadores, não existe mais.

A Prefeitura de Duque de Caxias informou que as unidades públicas de ensino do bairro atendem cerca de 2.600 alunos, além das unidades da Fundec (Fundação de Apoio à Escola Técnica, Ciência, Tecnologia, Esporte, Lazer, Cultura e Políticas Sociais de Duque de Caxias ), que oferecem gratuitamente mais de 20 cursos profissionalizantes.

Pessoas com necessidades especiais

Se a “escuridão” do analfabetismo traz limitações, a deficiência visual, física ou auditiva escancara o abismo social. As turmas de alfabetização do Instituto IDE também têm vagas para pessoas com deficiência.

“No meio desses adultos, nós temos um outro diferencial que é o PCD, a pessoa com deficiência, que ainda assim era catador e analfabeto, então é uma dificuldade monstruosa”, diz o pastor.

Aluna amamenta bebê durante aula no IDE — Foto: Marcos Serra Lima/g1

O processo de perda de visão de Luiz Carlos Raimundo Sampaio, 58 anos, começou em 2019. Ele chegou a ser submetido a uma cirurgia, mas teve complicações e perdeu o olho esquerdo. A cirurgia do olho direito estava marcada para 2020, mas veio a pandemia, e nenhuma cirurgia eletiva foi realizada durante aquele ano. Quando finalmente operou, em 2021, já era tarde.

“O único lugar que eu consegui que abriu uma porta para mim, mesmo eles não tendo essa especialização, a professora Vanessa se propôs a estar me ajudando. Eu estou aqui para aprender a reconhecer letras, reconhecer alguma coisa através das mãos, e agradeço a eles por abrir essa porta”, conta Luiz Carlos.

O desafio de lecionar para uma turma tão diversa é encarado pela professora de forma simples. “A nossa veia com o PCD é muito forte. A aula é preparada, o cenário é preparado para que ele esteja confortável no ambiente. Para que ele aprenda dentro da capacidade e limitação dele”, diz a professora Vanessa Teixeira Vecchi, 46 anos.

José Félix dos Santos Júnior, conhecido na turma como Juninho, tem deficiência física e mental. Aos 13 anos, ele andava por uma rua da comunidade quando um caminhão que ia despejar lixo no aterro sanitário subiu a calçada e o atropelou.

Além de já saber escrever o próprio nome, ele também participa do projeto esportivo do IDE, onde faz aulas de judô e tem planos. “Ser campeão, campeão mundial de juniores. Vou trazer a medalha para a Vanessa”, afirma o rapaz.

Para conhecer saber mais o Instituto Ide, basta acessar as redes sociais do projeto.

O aluno Junior teve a perna amputada após um atropelamento aos 7 anos de idade — Foto: Marcos Serra Lima/g1





Fonte G1

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